A carona nossa de cada dia
Por Jorge Miguel dos Santos*
São Paulo se tornou um emaranhado de ruas repletas de veículos. Segundo o Detran, circulam 6 milhões de automóveis e caso não conhecêssemos o número de habitantes - 11 milhões, seria possível acreditar que existem mais carros do que pessoas em circulação.
Há algum tempo, o temor do paulistano eram as enchentes que costumeiramente tumultuavam a volta para casa. Hoje, o número de veículos é tão grande que as vias já não suportam mais. É notório que temos mais carros em circulação do que espaço para transitar. E qualquer situação inesperada - vésperas de feriados, jogos de futebol, um acidente, veículos quebrados - pode alterar a rotina das vias e congestionar o tráfego.
Em 1997, foi instituída a “Operação Horário de Pico ou Rodízio”. Na época, foi memorável e é a estratégia fez com que a cidade fluísse um pouco melhor, porém, com o número de carros existentes hoje, já não atende mais as expectativas.
A última novidade, para tentar minimizar o caos instaurado no trânsito paulista, foi o desenterro do projeto “Carona Solidária”, que visa, instruir ou induzir a população a dar caronas para pessoas que se originam e desembarcam em pontos comuns. Como conhecemos as características individualistas e o receio das pessoas com relação à segurança o projeto pode até vingar, mas sem resultados positivos ao trânsito.
Não é isso que São Paulo precisa para voltar a ter mobilidade. O trânsito precisa de soluções imediatas para que a cidade comece a fluir melhor.
Ações de como planejar e aumentar, num curto espaço de tempo, o transporte coletivo, seja ele público ou privado, são soluções que evitariam incômodos à população, proporcionaria economia, menos desgastes e também contribuiria para a preservação do meio ambiente.
Todo o investimento, para promover uma mudança de hábito da população, poderia ser canalizado para uma função mais adequada ao Poder Público que é fiscalizar. A simples fiscalização dos automóveis irregulares em circulação deve retirar, de imediato, cerca de dois milhões de veículos, o equivalente a 1 rodízio e meio.
A adoção da fiscalização, a racionalização do uso adequado dos corredores de ônibus e o incentivo ao uso do ônibus de fretamento sem restrições de circulação, trarão resultados melhores e, aí sim, a carona solidária terá sentido. Por enquanto é só mais uma daquelas medidas que dá mais manchete do que resultado.
* Jorge Miguel dos Santos, economista e consultor em logística no transporte de pessoas e de cargas, é assessor da FRESP - Federação das Empresas de Transportes de Passageiros por Fretamento do Estado de São Paulo.